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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Anos 90 e o Downsizing

 As decadas 80 e 90  foram marcadas por uma forte recessão na econômica mundial, que começou com a crise do petróleo na segunda metade dos anos 70. Isso fomentou o surgimento de  uma teoria na administração de empresas  o qual  tinha como princípio fundamental  uma total reestruturação organizacional , mudando-se a forma de se realizar o trabalho e a estrutura hierárquica das empresas, visando uma maior eficiência e uma redução de custos.  

Essa teoria administrativa foi  denominado de DOWNSIZING.



No tocante a estrutura organizacional,  a teoria recomendava a redução dos níveis hierárquícos e uma maior horizontalização das relações de trabalho e com isso reduzir a burocracia que uma estrutura de várias camadas organizacionais pode causar. Dessa forma a empresa estaria reduzindo custos e se tornando mais agil e consequentemente mais competitiva.  

No tocante a forma de se realizar o trabalho, a teoria recomendava uma descentralização dos processos, dando-se mais poder aos níveis mais próximos dos clientes finais.

Nessa mesma época,empresas como Microsoft, Sun e HP,  se tornavam mais maduras e precisam se estabelecer e ganhar mercado, mas em função da estagnação reinante, não estavam obtendo o crescimento esperado , assim como toda a industria de TI.   
A saída era tomar  mercado das empresas estabelecidas.    


A própria IBM lançava, em fevereiro de 1990,  a sua família de computadores RISC, baseados em processadores PowerPC (hoje servidores Power), para competir com SUN e HP, e também acreditando que esse seria a sua nova galinha dos ovos de ouro ,  e que o ciclo do Mainframe realmente estava com os dias contatos e era necessário investir na sua alternativa.

Lou Gestner, gerente geral da IBM mundial, no seu livro  Quem disse que os elefantes não dançam ,  reconhece que acreditava que o novo cenário de computação não mais tinha espaço para o Mainframe.   

Os únicos que ainda acreditavam que o Mainframe não tinha acabado e que poderia fazer parte desse novo ciclo tecnológico eram as divisões de Mainframe da IBM, por razões óbvias, alguns grandes clientes que realmente entendiam o seu valor e não viam possibilidade de as novas plataformas sustentarem o seu negócio e alguns apaixonados pela plataforma, dentro e fora da IBM, que se mobilizaram para tentar reverter esse quadro, chamando atenção do mercado e da mídia para os erros de avaliação que estavam sendo feitos.  

A existência de diversos tamanhos e arquiteturas de computadores não era novidade, nos anos 70 também haviam distintas famílias, de todos os portes,  tecnologias e fabricantes, mas não ocorreu nenhuma guerra entre plataformas, pois a economia mundial estava aquecida e o mercado de informática estava em franco crescimento, com espaço para todos.    

Estavam aí os ingredientes necessários para se atacar a IBM e particularmente o seu segmento mais rentável, que era justamente o Mainframe e porque este representava um modelo totalmente contrário a teoria em expansão. O Mainframe era a base de um modelo computacional centralizado assim como a sua estrutura de custos, o que o tornava um alvo fácil para os adeptos do DOWNSIZING . 

E assim foi. Como num grande movimento de conspiração, na calada da noite, a industria de TI e as grandes empresas  de consultoria , as então chamadas Big Five,  desferiram um ataque ao mercado de Mainframe com o objetivo de roubar  market share desse.   Era a pratica de uma velha estrategia, se o bolo não cresce, o jeito é roubar do bolo do vizinho. 
Essa era a forma que encontraram para ampliar seus negócios e fizeram um plano muito bem arquitetado para destruir a imagem que o Mainframe detinha no mercado.  

A teoria do Downsizing foi usada para atacar a base de clientes, sob o argumento de redução de custos e aumento de produtividade com a implementação dos PC’s , num primeiro momento, e das redes locais , num segundo momento. 

Como alternativa aos Mainframes, recomendava-se o uso de servidores Unix ou Windows,  de menor porte, mais baratos, mais fáceis de operar , mais flexíveis e de maior Time to Value, organizados na forma de Cliente/Servidor,  modelo computacional surgido no inicio dos anos 90, que tinha como principio a organização dos computadores em rede,  onde os computadores de uso pessoal eram os clientes dos servidores departamentais, de maior porte, e especializados por tarefa.

Essa estrategia ganhou o mundo após artigo publicado na revista americana InfoWorld, em Março de 1991, assinado pelo seu editor chefe, Stewart Alsop, anunciando a morte do MF, e que o último seria desligado em 15 de Março de 1995.

Estava decretada a morte do Mainframe e com data marcada.

É claro que o movimento do Downsizing era sustentado por alguns fatores  teoricamente convincentes, mas o principal deles se sustentava no fato de que nenhuma outra tecnologia durará por tantos anos, e era ‘lógico ‘  que o Mainframe, após cerca de 30 anos de existência estava com o seu prazo de validade vencido.  

Há de se perguntar  onde estava a IBM nesse momento e qual foi a sua reação a esse movimento.    É preciso reconhecer que a própria IBM acreditava que o ciclo de vida do Mainframe havia se encerrado, novas tecnologias haviam surgido durante esse tempo,  o mercado e o mundo corporativo haviam mudado e requeriam outras soluções para a sua TI, mais baratas e ágeis.

Nessa época a IBM era presidida por Lou Gestner, que havia assumido a função no ínício de 1993, vindo da indústria de alimentos, tendo como principal missão salvar  a empresa  da eminente falencia, tinha pouco conhecimento do mercado de TI e principalmente da importância do Mainframe para a receita da IBM.

Sendo assim, a IBM se juntou aos demais fornecedores da industria e aceitou a ideia da obsolecência do Mainframe e que novos investimentos deveriam ser orientados nos servidores de pequeno e médio porte , principalmente da família Unix, cujo mercado crescia a taxas muito aceleradas.
 
O downsizing fez um estrago enorme na IBM , que levou algum tempo para entender o tamanho do prejuízo e se recompor.          

 SUN HP e Microsft  atingiram o processamento corporativo, através dos sistemas ERP’s ,
Telefonia móvel e outras tantas soluções de prateleira disponiibilizadas por um sem numero de desenvolvedores independentes (ISV’s) dispostos a substituir o legado de aplicações Mainframe.   

Essa não foi a primeira que na historia dos computadores se estabelece uma luta entre plataformas.  Nos anos 70, quando a IBM já dominava o mundo com a família S/360 e seus sucessores, surgiram várias empresas com modelos denominados mini-computadores, como a DEC (Digital Eletronic Computer), a mais forte entre elas , mas também Data General, HP, Olivetti,  entre várias outras.  Somente após estabelecido esse mercado com crescimento de 30% ao ano,  é que a IBM decidiu entrar e criou o seu Sistema /32.

Mas em nenhum momento criou-se um ambiente de competição entre plataformas e fornecedores, acreditava-se que havia espaço para todos e um não interferia no mercado do outro .  A razão para essa passividade talvez se explique pelo fato de haver  mercado para todos. O mercado era maior do que a capacidade de produção de todos os fornecedores juntos.

Nos anos 90 a luta entre as plataformas foi diferente, para uma crescer , ou apenas se manter,  tinha que tirar mercado da outra.  O mercado não crescia na mesma taxa que as empresas necessitavam para manter sua operação.     


Principais motivadores do DOWNSIZING e algumas considerações :
O último MF vai ser desligado em 1995  
Stewart Alsop, editor da renomada revista americana InfoWorld,  escreve artigo sobre o Downsizing, anunciando que o último MF seria desligado em 15 de Março de 1995.  Isso ajudou a desencadear uma corrida para as empresas desligarem o seu MF. Nenhum CIO queria ser o último.   Criou-se o slogan ‘ você já desligou o seu MF hoje ?

. MF é tecnologia velha
Os anos 90 viram acontecer grandes modificações na informática,  surgiram as redes locais, os sistemas baseados em Unix entraram para a computação comercial, os ERP’s  ganharam as grandes corporações e o surgimento da Internet.  Não seria possível o MF conviver com toda essa modernidade.  Uma arquitetura e tecnologia que já durará mais de 25 anos, certametne estava ultrapassada.  

. O usuário quer interface gráfica
O windows transformou a exepriencia do usuário  na sua interação com o computador. A interface gráfica e o mouse representavam uma grande evolução na forma de se usar o computador e representava um forte elemento de usabilidade.  Isso não se discute. A interface do MF, que era o terminal 3270 com fundo preto e  linha de comando texto, passou a ser  chamado de terminal burro.   Isso foi um enorme elemento usado contra o MF.   A questão é que os usuários de Unix, que tambem criticavam o MF pela sua interface, continuavam a usar interface similar (tela preta) com o editor de text VI , que era extremamente menos amigável do que o terminal e o editor do MF. 


. O Cobol vai acabar  
   Com o surgimento das linguagens mais modernas como C, C++ , Java e .NET, que atendiam de forma mais eficiente as necessidades modernas, pensava-se que o Cobol estaria com os dias contados e o Cobol estava diretamente associado ao MF.
Mas não foi bem isso que se viu anos mais tarde, o Cobol realmente perdeu um pouco da força mas não tanto quanto se imaginava e não se vê o seu fim.  Por outro lado, o Java não ficou tão dominante como se imaginava, principalmente no segmento corporativo. Surgiram outras linguagens orientadas para aplicações Web como PHP entre outras,  que diluíram o crescimento do Java.   

. Mudança no modelo de desenvolvimento de aplicações
  Com a popularização dos micros e dos sistemas Unix, começaram a surgir aplicativos prontos para essas plataformas, mas o mesmo não ocorria para o MF, que  tinha que enfrentar as dificuldades do desenvolvimento de aplicativos in-house.

. O Mainframe  é caro
O modelo econômico do Mainframe, onde todos os custos são contabilizados, torna mais aparente o custo da plataforma. Começava-se a falar em TCO  (Total Cost of Ownership)  e não TCA (Total Cost of Acquisition).

O Mainframe é proprietário 
 Para fugir do Mainframe, que era fechado e proprietário, o mercado correu para Windows e SAP, que eram  mais abertos      
.
. Faltam novos profissionais   
 De fato isso representa um grave problema. Com o surgimento das plataformas  distribuídas, Unix e x86, as universidades, sempre carentes de recursos, passaram a adotar essas tecnologias no seu currículo e consequentemente os novos profissionais entrando no mercado de trabalho traziam consigo esse conhecimento.  As universidades foram fundamentais na disseminação dos MF nos anos 70 e 80,  tanto para sua parte administrativa quanto para o curriculo.   Era necessario resgatar esse  mecanismo, e assim foi feito com o programa Iniciativa Acadêmica, lançado no início dos anos 2000.      


Paralelo a onda do Downsizzing , outras iniciativas ocorreram que contribuíram para a redução do número de instalações Mainframe:   
  
Rightsizing
Vendo a catastrofe anunciada se materializar, perdendo renda mês a mês no segmento de Mainframe, e não tendo a contra-partida de suas outras linhas de negócios que equilibrasse as contas, a IBM surgiu com o termo RIGHTSIZING , ao invés do Downsizing, cujo objetivo era reposicionar o Mainframe no mercado de computadores, de modo a preserva-lo no segmento das grandes empresas e deixar os segmentos de medias e pequenas empresas para a concorrência dos servidores Unix e x86.

É verdade que o Brasil, por causa da reserva de mercado que ocorreu entre os anos 70 e 90, teve uma penetração exagerada e destorcida dos Mainframe IBM e compatíveis.  Como as empresas não podiam importar certos computadores que lhe fossem mais apropriados para o seu perfil, acabaram comprando Mainframes  disponíveis no país e com o fim da reserva, poderiam novamente adquirir um modelo mais adequado.

Em outras palavras, muitas empresas tinham Mainframe mas não deveriam te-lo, o certo para elas seriam outros computadores de pequeno e médio porte.   O Rightsizing seria a forma de corrigir essa deturpação no uso do Mainframe e por isso se justificava seu abandono  por parte das empresas de determinado porte.  

Mas não foi exatamente isso que se viu no Brasil, nem em outras partes do mundo. O downsizing realmente corroeu a base instalada de MF.   Particularmente no Brasil, em meados dos anos 90, após o furacão do Downsizing, restaram não mais do que 20% dos  Mainframes, comparado com o final dos anos 80. 

Outros fatores
É verdade que ocorreram outros fatores simultaneamente ao Downsizing que também contribuíram para a redução da base de Mainframe.
Durante os anos 90 houve uma grande transformação no setor bancário e no setor de telecomunicação, setores esses onde o Mainframe tinha grande presença.

O setor bancário iniciou um processo de consolidação, similar ao ocorrido nos anos 60,  onde os grandes bancos de abrangência nacional adquiriram os bancos menores, reduzindo-se em muito o número de bancos no país. Esse processo, juntamente com a privatização dos bancos estaduais, consolidou o setor bancario em poucas instituições. 

Somente na área dos bancos estaduais, onde cada estado tinha o seu próprio Data Center com sua infraestrutura de informática, perderam-se mais que 20 instalações de Mainframe.  O Banco do Brasil nessa mesma época centralizou sua operações em Brasilia, passando de vários Data Centers regionais para apenas Rio , São Paulo e Brasilia.

No setor de telecomunicações, o fenômeno foi semelhante.  Com a privatização da telefonia fixa e o fim das empesas estaduais, reduziu-se o número de empresas restando apenas poucos grupos nacionais. Novamente perderam-se algumas dezenas de Data Centers nesse processo.    

Outsourcing foi outro fator que contribui.  Foi por volta de meados dos anos 90 que essa tendencia surgiu no mercado de TI, inspirado na prática do DOWNSIZING empresarial, e  motivado pelo fato ds empresas estarem buscando formas de se livrarem de seus Mainframes . 

Até hoje existem empresas que fizeram Outsourcing de seus Mainframes nessa época e continuam executando seus aplicativos de negócio usando os mesmos sistemas e infra-estrutura de então.     

Mas,  independentemente dos motivos, o fato é que os anos 90, foram catastróficos para o Mainframe, que viu a maior parte de seus usuários mudarem de plataforma e quase realizar as profêssias em torno de sua morte.  

No Brasil , estimava-se haver cerca de 2000 MF’s instalados no final dos anos 80, incluindo os compatíveis Hitachi e Futjitsu, representando aproximadamente 1300 empresas.     

Somando tudo
É claro que muitos dos fatores que sustentavam os argumentos do Downsizing não se verificaram, surgiram outros fatores que reverteram o cenário funesto que se apresentava e estancaram a sangria.

O próprio Stewart Alsop se redimiu de sua falsa profecia em artigo na mesma revista InfoWorld, em Fevereiro de 2002, reconhecendo o valor do MF.
  
“It’s clear that corporate customers still like to have centrally controlled, very predictable, reliable computing systems – exactly the kind of
systems that IBM specializes in.”
        Stewart Alsop, February 2002