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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Entrevista com Álvaro Salla - Não Poderia Faltar !

Não existe profissional de Mainframe , no Brasil ou no exterior,  que não conheçeu o Álvaro Salla, ou apenas Salla, como é popularmente conhecido.    Seja como instrutor de diversos centros educacionais da IBM, como especialista técnico, como autor de Redbooks  ou como consultor,  Salla se transformou num ícone da plataforma .  

Trabalhando com Mainframes desde 1969, quando ingressou na IBM,  aposentou-se depois de mais de 30 anos de trabalho,  continua trabalhando como consultor e como contratado da IBM para projetos especiais, Salla é uma das maiores sumidades mundiais em HW e Sistemas Operacionais de  Mainframe.  

Pessoa cativante, com senso de humor aguçado,  desempenha suas atividades profissionais sem esquecer  as  outras questões que envolvem a defesa da plataforma, com muita paixão  mas sem perder a racionalidade. Quando estourou a onda do Downsizing, foi o primeiro a contestar o movimento, mostrando os riscos que as empresas corriam.    

Veja abaixo a conversa que tivemos com o Salla . 



DR:    Salla, quando e como começou o seu envolvimento com  o  mainframe  ?  Qual era o modelo e tecnoloogia da época ?

AS: Três de fevereiro de 1969. A computação vivia a sua aurora. Mas antes disso cabe a seguinte estória.
Em dezembro do ano anterior eu era um jovem (sim, um dia eu fui) com dupla vida. Em uma, professor de Química em cursinhos pré-vestibular, ganhando bem e cheio de namoradas e mesmo pretendentes. Na outra,  um desgraçado aluno da Escola Politécnica envolvido com exames de matérias, que por um motivo ou outro eu não estava preparado para ser aprovado. 
O pior que elas eram o único caminho  para o diploma.  Nesse dezembro quente estava eu caminhando no prédio da Mecânica no campus da USP, quando vi estampado na parede um aviso que a IBM (what a hell?) viria à Escola aplicar um teste para admissão na tal empresa. Como eu não tinha ainda procurado emprego (e nem sei se o faria) decidi tentar. Fui selecionado para as entrevistas. E depois fui o único daquela safra cuja aprovação teve que vir do Gerante Geral da IBM São Paulo (Josino). Acho que os entrevistadores (Célio Lugão) até gostaram de mim, mas nada que fizesse ter coragem de dizer sim.  

Com mais 19 quase crianças começamos uma nova turma de trainees. A metralha inimiga foi severa nos anos seguintes e delas apenas  o Fadel resistiu até os 40 e tal anos de IBM. Eu fui embora pelos 30 e picos.

Nosso primeiro contacto com o Mainframe foi no próprio curso que se seguiu.  Ele que na aquela época tinha dois nomes dependendo da cultura de quem falasse ou computador ou cérebro eletrônico. 

Começamos com uma instrução programada de RPG, uma linguagem que mais tarde virou uma postura (hiac, hiac). A seguir B01, D11 (brochuras verdinhas, lembram?) e por aí. Foi estranho o primeiro contacto com ele. Um /360 modelo 20 no Centro de Computação da Rua Araújo (hoje é um Night Club)... Dele me lembro de alguma luzes piscando misteriosamente e um aviso oral de alguém para não colocarmos os nossos cadernos por cima...Nada muito especial portanto.

DR:  Quais a principais  transformações ocorridas no mainframe que vôce presenciou durante a carreira ?

AS: Absolutamente todas.
Desde a sua ascensão  ao monopólio mundial, até a sua queda com o DOWNSIZING  e finalmente até o seu reerguer agora mais sábio e sólido.   Da entrada de dados via cartão perfurado até smart fone.

Do Batch até o Online. Quando o Batch dominava no Jurássico cheguei a debugar programas no Banco do Brasil, junto com operadores de olhos brilhando, e com a CPU em Instruction Step mode. A PSW era um monte de lampadinhas no painel de um modêlo 40...  E acreditem, o telefone não tocava com reclamações de usuários chatos sobre uma degradação no tempo de resposta.

De uma humanidade mais feliz com políticos menos corruptos,  menos drogas e empresas que tratavam bem seus funcionários e clientes até... 

DR:   Que aspectos da tecnologia mainframe você pensa serem os de maior diferencial comparado com outras plataformas ?  

AS: Sem dúvida a assim chamada plataforma distribuída teve ao longo do tempo tecnológico grandes avanços.
Mas não devemos nos esquecer que tais plataformas (UNIX e Windows) não foram desenhadas para o processamento comercial. O Mainframe foi, e por isso ele é ainda o melhor nesse ambiente. Suas métricas de disponibilidade, segurança, integridade, compatibilidade, contabilidade e custo por transação processada ainda são imbatíveis. Além disso,  na chamada plataforma aberta tem uma maldição de um velho feiticeiro: “Um sistema, um aplicativo”. Isso nos leva a milhares de sistemas (virtualizados ou não) para serem mantidos e geridos.

Com o intuito de ser menos odiado (pelo  lado escuro da força), eu vou qualificar de uma forma maniqueísta os três grandes tipos de processamento existentes:
·         Engenharia/ciência  geralmente do bem, por alargar o nosso conhecimento sobre o universo e suas leis.  
·         Pessoal que pode ser do bem ou do mal dependendo do aplicativo e de suas razões últimas,
·         Comercial, o mais maldoso, pois em suma busca apenas aumentar o lucro das empresas.  

DR:   O downsizing quase  'matou'  o mainframe,  a que vôce atribui o ressurgimento dele ?  

AS: Acima de tudo ao barateamento do custo total da plataforma. Em segundo lugar o acolher de novas tecnologias  e necessidades do mercado.  Mas, mantendo as propriedades que o fizeram “king of the hill” no processamento comercial.
Os seus detratores afirmam que agora as Universidades não formam técnicos para essa plataforma. Na verdade nunca ou quase nunca formaram e nem por isso faltou o elemento humano na plataforma.

DR:   Na sua opinião,  por que tantas empresas acreditaram no downsizing   ? 

AS: Em primeiro lugar o custo, em segundo o custo e em terceiro, as falácias das empresas de informática que oportunisticamente aproveitaram a onda.  Quantas companhias sofrendo a dor lacinante da migração calaram a boca, pois companhias (e os seus gestores) nunca tomam decisões erradas.   

DR:  Quando começou o downsizing, voce foi as 'ruas'   para  combater essa tendencia.  O que o  Downsizing prometia e o que realmente entregou ? AS: Que me perdoem a ausência de modéstia, mas eu fui um dos líderes do movimento. Bandeira na mão, cabelos ao vento (visão virtualizada), por sobre as barricadas enfrentando os bacamartes do inimigo. A bem da verdade mas  com gosto amargo na boca. Pois quem nos levou a essa batalha (mais ou menas perdida) foi a própria IBM, que insensivelmente cobrava preços quase imorais por essa máquina maravilhosa, o Mainframe.  Contudo devo dizer que cometi erros. Às vezes  no fragor da batalha em muitas palestras (algumas em terreno hostil) usei a ironia e a galhofa, que se não retiraram a verdade de minha palavras, causaram raiva incontida. 

Uma vez na Gávea (que saudades) um cliente espumando enfurecido foi detido a passos de minha pessoa. Quase apanho uma sova na frente de muitos.    Escrevi também vários textos, sendo o mais engraçado aquela estória do carroceiro que comprou galinhas para tracionar a sua carroça.   Mas tudo valeu a pena e por seus próprios méritos o Mainframe está vivo neste milênio e em quantos mais vierem.   Que o digam, os clientes novos aqui no Brasil chegando felizes à plataforma: Sicoob, Boa Vista, Banco de Brasília.

DR:   Na sua opinião, qual a motivação  para novas empresas adotarem o mainframe ?

AS: Aquelas enunciadas em reposta anterior. Ou seja: disponibilidade, segurança, integridade, compatibilidade, contabilização e custo por transação. Tudo isso acrescido a um pequeno número de servidores e a uma agora modernidade.